Carlota Wahnon
Estou num apartamento sem mobília, sujo, com as paredes escritas. Copos no chão, garrafas vazias, e um rádio ligado.
Sorrio... Estou a ser fotografada, mordo o lábio. Não sei quem está por trás da máquina... Os flashes continuam.
Agarro numa tesoura, e começo a cortar o cabelo. Sigo ao ritmo da música.
Acendo um cigarro e tento aproximar-me da máquina que dispara incessantemente. Pensamentos a mil à hora... Quero que me captes a alma, tu, pessoa estranha, guarda-me no rolo da tua máquina, torna-me imortal. Torna a minha roupa rasgada e suja numa peça de arte, mostra as fotografias ao mundo e expõe a minha alma, deixa-me transparente, nua. Páro antes de chegar perto da lente.

- Quem és tu?

Sinto a minha alma quente... Obtenho apenas uma respiração pesada como resposta.
Avanço para a máquina, o flash pára de disparar, ninguém. Fico estagnada...

Vinda de trás, uma mão agarra-me a cintura, outra agarra-me o cabelo curto... Um arrepio percorre-me as costas... Sinto uma respiração quente no pescoço.

- Não interessa. Sou quem quiseres.