Carlota Wahnon
-Uma duas... Duas janelas. Duas. Dois mais dois quatro. Quatro barras de ferro em cada janela. Um eu, uma cela. Aii... Medo, sozinho. Eu eu, sim. Dois, quatro, um sozinho. Riscos! Riscos na parede, sim muitos muitos. Sete mil trezentos e um. É, riscos lindos!
O guarda levanta-se da cadeira irritado com tanto barulho, avança em passos pesados e lentos ajeitando o cinto repleto de chaves e canecas penduradas.
- Cala-te escroto! Falas outra vez e trato-te da saúde! Estou a tentar ouvir o relato da bola no rádio!!
Na cela o criminoso só ouve as suas palavras. Está encarcerado numa solitária há mais de vinte anos e perdeu completamente o tino. Com as unhas pretas e sujas arranha mais um risco na parede correspondente a um dia. Levanta-se e no meio da cela começa a dar voltas a si próprio entoando uma lenga lenga irritante.
- Glin-glin, que tens ao lume?
Glin-glin, tenho papas.
Glin-glin, dá-me delas.
Glin-glin, não tenho sal.
Glin-glin, manda-o buscar.
Louco de fúria o guarda pesado e gordo levanta-se novamente e dirige-se à porta da cela com um cacetete numa mão. Mexe e remexe nas chaves até encontrar a certa.
- Olha lá meu filho da puta! Não te mandei calar?! QUANDO EU MANDO, TU OBEDECES!!!
Agarra no seu instrumento de violência e bate em três zonas diferentes do corpo mal cheiroso e curvado do criminoso.
- Glin-glin, não tenho por quem.
Glin-glin, por João Branco.
Glin-glin, não pode, está manco.
Glin-glin, quem o mancou?
Glin-glin, foi um pau.
Bufando e arfando o guarda não consegue conter-se mais, e com o magro prisioneiro no chão a tremer cantando a sua lenga lenga, dá pontpés na barriga e na cabeça deste. Berra furioso impondo a sua autoridade.
- Aqui quem manda sou eu! EU! OUVISTE MEU MONTINHO DE MERDA?!
De resposta obtém uma manifestação corporal vinda das traseiras do nosso amigo sem noção da realidade, e um riso louco e descontrolado. O guarda dá um últim golpe com força na cabeça do bicho e este cai para o lado a dormir em cima da latrina.

Abandona a cela e senta-se novamente, satisfeito com a sua repreensão pelo silêncio quebrado por divagações de um louco criminoso fora de prazo.