Carlota Wahnon

Todos os dias ela levantava-se com o sol na cara. Mesmo quando havia nuvens no céu.
Comia a sua fruta, os cereais, e saía de casa com um iogurte na carteira cheia de talões antigos. Era uma desarrumada! (risos)
Era dona de uma agência de publicidade muito conceituada, mas não era snobe; falava a todos de manhã com a maior das boas disposições e boa educação.
Eu achava-a descontraída mas trabalhadora, divertida mas pouco faladora. Guardava sempre o mais importante para ela. Adorava isso nela...(emocionado)

- Está bem? Se quiser fazer um intervalo na entervista, esteja à vontade!

Não, não. Continuemos. Ahm... Onde é que eu ia... Sim, tudo lhe corria bem. Amigos não lhe faltava, talvez mais em quantidade do que em qualidade, ainda assim, tenho a certeza que adorava a vida que levava. O poder usar a criatividade no trabalho, as saídas à noite ao fim-de-semana, as viagens loucas em cima da hora que ela fazia! Era mesmo doida, realmente... Alugava uma carripana e arrastava toda a gente com ela para ir fazer as coisas mais maravilhosas que alguma vez experienciei. Uma vez levou-nos para França, para o lago aude pyrénées-orientales! Foi lindo... No meio da neve, das árvores, estava um tempo de sonho. Um sol radioso!
Fomos nadar todos nus, à noite, no lago com lanternas que ela trouxe para nos vermos debaixo de água. Depois do jantar ela punha-se a imitar os animais(comovido).

Ahm...Adiante! Sempre fui amigo dela e sempre fui apaixonado por ela. Sei que ela o sentia, mas eu não era correspondido e ela tentava não me magoar da maneira mais doce que conseguia; fazia-se de desapercebida.

Se eu estava à espera? Não, nunca... Não se espera que coisas deste género acontecam, mas sabia que ela era capaz. Apesar de ser uma pessoa cheia de emoções, era assustadoramente desprendida do mundo e das pessoas. Vivia um bocado no mundo dela como o Petit Prince.
Estava a arrumar a mala à pressa para ir ter com ela e o resto pessoal porque tínhamos recebido uma mensagem a dizer "aluguei a carripana outra vez! esta vai ser a melhor de todas! vocês vão-se passar... well... LOVE YOU GUYS!!!".
Fomos todos ter a casa dela, que era sempre o ponto de encontro. Quando estamos a subir o elevador começamos a ouvir gente a chorar. Era a família dela. Pensei, quer dizer, pensámos todos que lhe tinha acontecido alguma coisa. O irmão dela, João, mal nos viu, começou a perguntar se sabíamos da carta. Não sabíamos de nada! O João exaltou-se e começou a bater num dos nossos amigos, desesperado por ter perdido a irmã. Foi então que no meio da confusão vi uma carta em cima da mesa.
Despedia-se de toda a gente, e muito sucintamente dizia que não aguentava mais a pressão da sociedade, não percebia porque é que as pessoas têm de ter dinheiro, carros, carreiras, casas... E que ia vaguear pelo mundo. Nómada como todos os outros animais da terra. (choro emocionado)

- Até hoje voltou a vê-la alguma vez, ou foi contactado?

Não voltei a vê-la, mas uma vez ligou-me.

" - Estou?
- Peter. Sou eu.
- ... (respiração nervosa) Onde é que estás?!
- Estou em todo o lado e sempre em casa. Todos os dias conheço pessoas maravilhosas. Liguei-te porque queria dizer-te para não te preocupares comigo.
- Estás doida?! Não podes fazer isto... Eu tenho saudades tuas! Toda a gente tem! Volta por favor!
- Liguei-te para te dizer que estou feliz. Não vou voltar, mas talvez, no futuro os nossos destinos se cruzem outra vez. Espero que encontres o mesmo que eu um dia. Adeus baby.
- Espe....
(disconnected)
....ra"
Carlota Wahnon
O estádio parece ter 579km , tenho um milhão de olhos postos em mim, a minha filha agarra nos ombros do irmão mais novo, nervosa e sorridente para me dar confiança.
"Não sou capaz.... Não consigo..."
O estádio todo fica em silêncio. Só ouço a minha garganta a engolir em seco. Esvazio a minha mente, inspiro, expiro, passo a mão na minha cabeça rapada e ponho-me em posição à espera do tiro da partida.
Do meu lado esquerdo um rapaz branco respira com a força de um búfalo, e a sua linguagem corporal diz-me que se move como uma chita. Olho de novo em frente e no último segundo antes do tiro agarro na terra batida, vermelha como a da meu país. Num segundo tudo me passa pela cabeça, a minha filha a passar fome para dar comida ao irmão mais novo que é mais frágil, os sorrisos de conforto quando me sinto um mau pai, os abraços de força quando temos de nos unir contra o mundo que está contra nós...

BANG

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Com a mente vazia e calma como um verdadeiro buda começa a correr. Corre pela vida, pelos filhos, para chegar ao final, para nunca chegar ao final e continuar a correr, corre porque é feliz mas é pobre. Corre porque gosta de correr.

EEEEEhhhhhhhhhhh AAAAHHHHHHhhhh - a multidão aplaude o vencedor, confetis caem, sorrisos rasgados espalham alegria pelo ar.

Sem notar, ganhou por dois segundos a corrida. Ganhou um título mundial. Ganhou o seu objectivo pessoal. Ganhou um futuro para os filhos. Ganhou abraços calorosos. Ganhou coragem para dar amor. Ganhou coragem para nunca mais parar de correr e rasgar todas as metas e obstáculos da vida, sempre em primeiro lugar.
Carlota Wahnon
Acabei de ler a tua carta... Não percebo. Como é que largas sentimentos como quem expira? Sinto-me um espelho partido... Sem utilididade, sem vida, desprezado.
Vim para aquela rocha onde gostavas de ver o pôr-do-sol quando estavas feliz... Feliz comigo.
-PORQUÊ?! Sem ti a minha alma morre! Estou desesperado... Preciso de ti, do teu cheiro do abraço quente, da tua pele suave. Quero bater-te! PUTA!!... Não me deixes... Eu amo-te.

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Desesperado continuava a berrar para o mar com a carta molhada e rasgada ainda na mão. De repente parou. Só sentia a chuva, o coração já estava morto, não batia, as veias no seu corpo ficaram frias. Chorou, levantou-se em silêncio e começou a despir-se. Completamente nu ainda agarrava a carta e chorava tristeza e abandono de todos os poros do seu corpo.
Caminhou devagar até à beira do penhasco. Fechou os olhos e sentiu a chuva. Sentiu o frio. O silêncio cru. Deixou-se cair no poço mais profundo da sua alma. Tudo estava escuro. Abriu a mão, a carta escorregou dos seus dedos molhados. Abriu uma última vez os olhos e saltou das rochas gritando.

O seu corpo escondeu-se para sempre nas profundezas do mar junto com o seu coração esquartejado.
A chuva cantava sozinha. O sol pôs-se e o ar voltou a ficar vazio, sem tristeza, sem felicidade, sem energia, sem abandono.