Carlota Wahnon
O estádio parece ter 579km , tenho um milhão de olhos postos em mim, a minha filha agarra nos ombros do irmão mais novo, nervosa e sorridente para me dar confiança.
"Não sou capaz.... Não consigo..."
O estádio todo fica em silêncio. Só ouço a minha garganta a engolir em seco. Esvazio a minha mente, inspiro, expiro, passo a mão na minha cabeça rapada e ponho-me em posição à espera do tiro da partida.
Do meu lado esquerdo um rapaz branco respira com a força de um búfalo, e a sua linguagem corporal diz-me que se move como uma chita. Olho de novo em frente e no último segundo antes do tiro agarro na terra batida, vermelha como a da meu país. Num segundo tudo me passa pela cabeça, a minha filha a passar fome para dar comida ao irmão mais novo que é mais frágil, os sorrisos de conforto quando me sinto um mau pai, os abraços de força quando temos de nos unir contra o mundo que está contra nós...

BANG

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Com a mente vazia e calma como um verdadeiro buda começa a correr. Corre pela vida, pelos filhos, para chegar ao final, para nunca chegar ao final e continuar a correr, corre porque é feliz mas é pobre. Corre porque gosta de correr.

EEEEEhhhhhhhhhhh AAAAHHHHHHhhhh - a multidão aplaude o vencedor, confetis caem, sorrisos rasgados espalham alegria pelo ar.

Sem notar, ganhou por dois segundos a corrida. Ganhou um título mundial. Ganhou o seu objectivo pessoal. Ganhou um futuro para os filhos. Ganhou abraços calorosos. Ganhou coragem para dar amor. Ganhou coragem para nunca mais parar de correr e rasgar todas as metas e obstáculos da vida, sempre em primeiro lugar.
Carlota Wahnon
Acabei de ler a tua carta... Não percebo. Como é que largas sentimentos como quem expira? Sinto-me um espelho partido... Sem utilididade, sem vida, desprezado.
Vim para aquela rocha onde gostavas de ver o pôr-do-sol quando estavas feliz... Feliz comigo.
-PORQUÊ?! Sem ti a minha alma morre! Estou desesperado... Preciso de ti, do teu cheiro do abraço quente, da tua pele suave. Quero bater-te! PUTA!!... Não me deixes... Eu amo-te.

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Desesperado continuava a berrar para o mar com a carta molhada e rasgada ainda na mão. De repente parou. Só sentia a chuva, o coração já estava morto, não batia, as veias no seu corpo ficaram frias. Chorou, levantou-se em silêncio e começou a despir-se. Completamente nu ainda agarrava a carta e chorava tristeza e abandono de todos os poros do seu corpo.
Caminhou devagar até à beira do penhasco. Fechou os olhos e sentiu a chuva. Sentiu o frio. O silêncio cru. Deixou-se cair no poço mais profundo da sua alma. Tudo estava escuro. Abriu a mão, a carta escorregou dos seus dedos molhados. Abriu uma última vez os olhos e saltou das rochas gritando.

O seu corpo escondeu-se para sempre nas profundezas do mar junto com o seu coração esquartejado.
A chuva cantava sozinha. O sol pôs-se e o ar voltou a ficar vazio, sem tristeza, sem felicidade, sem energia, sem abandono.