Carlota Wahnon

No café velho, perto da bomba de gasolina, onde uma ventoinha preguiçosa roda sem refrescar o ar, e músicas dos anos 50 se fazem ouvir baixinho, chega um cliente habitual com um sorriso radiante, e sentando-se ao balcão, faz o seu pedido:
-Bom dia minha senhora! Estou com os espíritos renovados! Hoje em vez do costume… Ahm… Quero um sumo de laranja e um hamburger com duplo queijo. Não, não, só com uma fatia, que estou de dieta.
Mexendo-se no banco, talvez de gordura excessiva e medo de se desequilibrar do pequeno círculo que desaparece por baixo do seu real traseiro; ou talvez de excitação e felicidade, aguarda com um sorriso nervoso e gotas de suor a escorrer pela cara o seu repasto.
Com uma voz rouca de 31 anos de fumo a arranhar a garganta, a empregada por trás do balcão de idade indefinida (entre 57 e 153) grita, sem se mover, o pedido para o cozinheiro.
A caixa de música avariou, sendo a sua melodia substituída por moscas a voar, barulhos de meia dúzia de talheres, o zumbir da ventoinha e a respiração do nosso amigo cliente tão delicada como a de um elefante numa sauna.
A empregada de mesa, pisca os olhos em câmara lenta excessivamente pintados de azul pavão (como quando tinha 20 primaveras) esperando que o pedido seja entregue. Fica placidamente a olhar para o nada com o seu capacete de caracóis pintados de vermelho em cima do cocuruto. Em nova era realmente uma ruiva fogosa que fazia virar cabeças e semeava comentários vindos de prédios em obras como “qualquer-coisa-ordinária". Talvez esticando a pele das bochechas enrugadas, como quem trata de pele de tambor, ainda se veja a beleza de outrora – antes do chato do tabaco ter feito de cabeleira de fogo, cinzas, e da pele de branca de neve, a da madrasta velha. Maldita gravidade, e malditos relógios que não esperam por ninguém!
Pode perfeitamente substituir o triângulo de sinalização de perigo se tiver um acidente de carro: da camisa amarela às bolas verdes, à saia cor-de-rosa choque, passando pelo batom encarnado sempre acompanhado de um cigarro entalado na boca; ofusca qualquer inocente condutor.
Vendo o seu melhor cliente com ansiedade nos olhos e na boca que quer jorrar qualquer informação cá para fora, inala o fumo do cigarro e pergunta monocordicamente “se o cliente está bem e o que fez para estar com um ar tão feliz”.
No meio de trincas devoradoras, e mastigação a “céu aberto” (etiqueta americana), o anafado e bem-disposto cliente responde longamente com muito entusiasmo à sua pergunta.
Enquanto a empregada pensava na marcação do cabeleireiro para arranjar as unhas, e na vizinha que ainda não lhe devolveu o tupper-ware pequeno que lhe faz imensa falta, ouve uma matraca de fundo, que diz qualquer coisa como “blá blá blá, palavras, verbos, adjectivos”.
Voltando à realidade e reparando que o prato no balcão se encontra vazio e a boca do outro lado do balcão já não mastiga nem fala, inala mais uma vez o seu adorado cigarro e com a sua maravilhosa voz de catarro profere:
- Obrigada por ter vindo, são sete dólares se faz favor. Na Maggie’s Burgers fazemos os pratos mais deliciosos e suculentos (tosse profunda), volte sempre.