Carlota Wahnon

- Pára! Não sejas tão cortante! Sê mais...

- Mais como? Como tu?

- Lá estás tu! És um bisturi, cortas muito, és demasiado exacta e cortas até ao fundo. Sim... mais como eu.

- Sabes que acabaste de pintar com caneta preta onde devo cortar, não sabes?

- Pára!

- Não estarás tu sem querer a transformares-te em mim, a pedires-me para ser mais como tu para voltares a ter o teu conforto do silêncio? Esquece isso. Foi um acidente, mas aconteceu, agora és assim. Não um bisturi, mas já não és uma colher.

- Estragas tudo com a merda das palavras! Porquê? Qual é o interesse? Se eu estou a ver um lago lindo contigo, rodeado de árvores que brilham com os reflexos ondulantes da água, não quero que mo descrevas, eu estou lá. Mais que a beber palavras para tentar decifrar uma imagem, estou lá para ver e sentir. Não estragues isso com o ruído das tuas palavras!

- E então? Olho-te nos olhos e tu sentes o que te quero dizer, é isso?

- Sim.

- Olha para mim.

- Não me faças isto...

- Olha para mim! Nos meus olhos! O que é que vês?! Que bichos se passeiam na minha cabeça?

- Aranhas e escaravelhos. Devias tirar uns unicórnios e umas fadas da minha. Tens os olhos tão turvos de escuridão do som da tua boca que nada vejo. Cala-te por um ano e depois falamos.

- És uma cobarde.

- Sou uma sonhadora.

- Chama-lhe o que quiseres. Tens medo da frontalidade e nunca a enfrentarás porque tens medo de "falar" com ela.

- Tenho o meu tipo de frontalidade.

- A sério? Há mais que um tipo? Genial! Quero ouvir! Ou vais debitar-me mais informação ocular?

- Guardo o mais importante para mim.

- Mas estás a partilhar isso comigo, e agora? És menos mística e mais comum por isso? Foges da vulgaridade como o diabo da cruz. Com isso tornas-te vulgar.

- Eu sei que sou vulgar.

- Não, tu não te julgas vulgar, só o dizes para eu te contrariar, como uma gorda que diz que ganhou uns quilos na esperança de ouvir um mentiroso "estás óptima" para servir de almofada para o ego. Trata de contornar a tua vulgaridade de outra forma. Falar com os olhos até um cão sabe para pedir comida ao dono. És mais que isso, suponho.

- Não te posso pedir para seres sensível e entenderes o que não digo através da linguagem do meu corpo ou dos meus olhos. Quando dizes que as flores do Renoir ou o céu do Van Gogh são, e passo a citar "borrões perfeitamente exequíveis para um comum mortal", eu sinto-me tão frustrada ao teu lado como uma testemunha de Jeová casada com um muçulmano.

- Achas que te quero declarar guerra?

- Contigo sinto-me constantemente num bunker, a tentar sobreviver a bombardeamentos.

- E se eu te disser que eu sou tu?

***

Abre-se a porta do quarto desarrumado deixando entrar um rapaz de pernas finas, calções, óculos para ver ao longe, aparelho, cabelo e cara suados de um possível jogo de futebol, com uma mochila às costas. Analisa o quarto e fixa os olhos no centro:

- Porque é que estás sentada em frente ao espelho?

Carlota Wahnon
Quando o teu corpo deixa de bombear sangue e a vida se extingue do batimento do teu coração, a tua “alma” cessa a sua existência.
Não, não foste o Alexandre o Grande noutra vida por teres liderado e conquistado países.
Não, não foste a Cleópatra por teres tido um caso com as duas cabeças da política e economia mundial.
Não, não foste o Einstein por teres inventado uma nova fórmula matemática para o problema da física quântica.
Não, não foste o Mozart por teres composto a peça de piano do teu século que será estudada posteriormente.
Não, não foste o teu avô porque não conseguiste nem tinhas vontade de ser um bom pai porque ela engravidou de propósito.
Tu, no sítio em que deste o teu último fôlego, deixaste a tua aflição, a tua alegria, o teu êxtase, o teu desespero, o teu orgasmo, o teu sofrimento. Tu és matéria e energia.
Um leopardo, um beija-flor, mesmo um cavalo-marinho, foram e deixaram de ser. Sentiram, sofreram e regozijaram tanto ou mais que tu na sua simplicidade de prazer, para no fim cessarem todos os seus momentos e experiências com um ponto final na sua existência. Vieste de matéria, e matéria voltarás a ser, terra, alimento, fertilizante, isso será a tua “reencarnação”. A tua “alma” é apenas reminiscências de energias fortes, passadas, que deixaste no teu local de partida. Como as nuvens, a tua energia dissipar-se-á e transformar-se-á em algo que já não és tu, como um “sim mãe” obediente de uma criança que antes fazia  birra, como a epifania de um Zé Ninguém que não tinha motivos de vida, como uma pessoa que queria dizer não e disse sim.
Não te refugies no conforto de um além guardado por um todo poderoso capaz de julgar, possivelmente chamado “Deus”. Vive plenamente, erra, acerta, escolhe, deixa ao acaso, faz, não faças, mas faz o que te faz feliz, pois vida, que tu alguma vez tenhas sabido, vivido ou sentido, só tens uma, e se não fizeres dela uma obra do Pollock, ao acaso e sem nexo, só porque te sabe bem, de que vale viver?