Carlota Wahnon

Ada era uma rapariga inglesa de Whitby na casa dos vinte, baixa, de pele muito branca e bochechas cor-de-rosa, cabelo curto preto muito liso. Ada gostava muito de passear à beira mar e ficar com os óculos embaciados, gostava de, quando via um pássaro ou um gato giro levá-lo para casa e soltá-lo no dia seguinte; mas o que a Ada gostava mesmo era de ir à cidade dos seus sonhos, Paris, e tirar uma fotografia de noite à torre Eiffel, comprar uma pintura na rua a um homem que se chamasse Pierre e comer um croissant com compota francesa numa esplanada.

Ada vivia com os avós pois ninguém sabia o paradeiro dos seus pais. Desde criança que se lembra dos avós ternurentos a pendurarem os seus desenhos na parede do sótão que apesar de não serem grande coisa, recebiam sempre um “One day you’re going to be a great great artist Ada!”. Trabalhava num cinema local, na bilheteira, e todas as semanas tirava três bilhetes às escondidas para si e para os seus avós.
Um dia, a alguns meses do seu aniversário, os seus queridos avós sentaram-se sorridentes à sua frente na mesa da cozinha, com a toalha aos malmequeres, e deram-lhe um envelope que continha três bilhetes para Paris. Ada correu pelas escadas acima, agarrou na máquina fotográfica e quando desceu perguntou ao avô quem cuidaria das rosas do jardim – “Don’t worry about it precious, Mr. Willoughby from the church will take good care of them.”

Em Paris de dentro dum táxi perto da igreja de Notre-Dame saem três pequenas pessoas enamoradamente arrebatadas com a beleza da cidade. Depois de deixarem as malas num modesto hotel alugam três pasteleiras e pedalam pela cidade.
Tiram fotografias em frente à torre Eiffel, compram crepes com chocolate nos Champs-Élysées, a avó compra lírios para pôr no cesto da bicicleta, e o avô três baguetes (Paris, atrás do vento vindo de baguetes num cesto duma pasteleira cheira a um beijo no dia 31 de Fevereiro), pararam em três praças de pintores até encontrarem um Pierre pintor a quem compraram uma caricatura de Ada com uma boina francesa e uma paisagem - uma ponte florida ao pôr-do-sol.
Depois de irem a um cabeleireiro para Ada cortar uma franja como as francesas, procuram um sítio para jantar e encontram um restaurante com mesas por baixo de uma enorme árvore coberta de luzes e velas penduradas.

Enquanto Ada mastiga uma beringela do seu ratatouille vai espreitando e roubando pedaços do que a rodeia na sua memória, até prender o olhar num jovem acordeonista com cabelo encaracolado e um cigarro preso num rasgado sorriso despreocupado. Tocava e dançava uma valsa francesa. Ada engasgou-se e levantou-se tentando recuperar o fôlego, quando levantou os olhos o músico entrou num prédio abandonado, ela olhou para os avós que acenaram um sim com a cabeça. Com o guardanapo preso no casaco de malha encarnado e os óculos desalinhados correu atrás da música, entrou no prédio, subiu escadas de madeira agarrando um corrimão velho de ferro forjado, saltando as escadas duas a duas chegou ao cimo do prédio onde o acordeonista tocava olhando a torre Eiffel e todas as luzes de Paris.
Parecia que afinal alguém ali morava, no topo do prédio estavam coisas velhas como decoração, um triciclo velho, um sofá uma mesa e cadeiras de ferro e uma data de canteiros com flores.

- Je m’appele Gaston, et toi ma petite fleur?

- Eh… I'm Ada.

- Ah english! Would you carrre to dance?

Pousando o instrumento musical, Gaston põe um disco num gramophone perto do parapeito, agarra uma madressilva e coloca na orelha de Ada (é a palavra preferida dela – Honeysuckle).

Enquanto se fez ouvir a voz rouca de Fréhel, dançaram os dois com as luzes de Paris a abraçá-los.