Carlota Wahnon
Numa aldeia pobre e inóspita, longe do dinheiro e de casas grandes com famílias que se odeiam, morávamos nós. Levei-te para lá comigo, tinha eu 16 anos, estavas ainda na minha barriga. Tinha tanto medo... Era tão nova! Eras lindo! Nasceste num dia de chuva perto do pântano que tinhamos ao lado da nossa casinha lembras-te? Gostavas tanto de brincar na lama! Sempre feliz e todo sujo.
Viviamos a mais de 1000Km da cidade mais próxima, a nossa aldeia tinha apenas 153 habitantes, e eu não falava a língua deles.
Estávamos na Rússia e a nossa aldeia albergava pessoas que, como eu, tinham fugido a um passado que queriam esquecer.
Éramos a família mais feliz do mundo! No dia do teu 4º aniversário estávamos a fazer aquilo que mais gostavas, pinturas na cara com as tintas que eu fazia, e a brincar às escondidas no meio da lama. Foi quando estava a contar... Nunca esquecerei esse momento.
- Um, dois, três... Esconde-te Mikhail! Quatro... Cinco...
BOOOOM!!! BOOOM!! Começam a rebentar bombas e tiros... A aldeia estava a ser devastada por soldados.
- Mikhail!! MIKHAIL!! ONDE ESTÁS??! - gritava desesperada correndo de um lado para outro com dificuldade por causa da lama que dava pouco abaixo dos joelhos.
-Mat !! MAT! AQUI MAT!!
Estavas à porta da nossa humilde casa agarrado ao teu boneco de trapos a chorar assustado. Debatia-me para sair da lama e correr para ti! Mas foi tarde... Foi tarde de mais... Um soldado agarrou-te pelas roupas, e como uma máquina sem coração olhou para mim com um sorriso assustador. Viu o meu desespero a correr para ti, e deu-te um tiro a olhar-me nos olhos. Ficou a ver-me a chorar agarrada a ti. Virou as costas e foi embora num helicóptero com os outros soldados da morte.
Chorei quatro horas seguidas... A minha alma tinha morrido contigo.
Foi então que ouvi um choro de bebé ao longe! Fui deitar-te na tua cama já meia rebentada pelas bombas. Beijei-te a testa e tapei-te com a manta verde escura. Corri no meio da confusão de casas e cabanas rebentadas, de corpos no chão e fumo das casas ardidas.
Encontrei um bebé vivo nos braço da sua mãe que estava morta. Tudo o que sabia dos dois era que tinham vindo de Timbukto. Agarrei-o nos meus braços e entreguei-me a ele como não me deixaram que me entregasse a ti.
Já passaram 10 anos... Deixei a Rússia para trás, e arranjei uma nova pátria, Kenya. Dei um nome local à tua nova irmã: Awiti. Significa "nascida depois da desgraça".
Moramos com vista para uma montanha linda e imponente. O tempo aqui não é como na Rússia, é quente e seco, ou então muito chuvoso. Mas ias gostar de ver estes animais exóticos tão diferentes dos da nossa terra!
Estou a ver a Awiti ao longe a vir para casa. Tenho de servir o Ugali com os vegetais. É o prato preferido dela!
Espero que recebas a minha carta onde quer que estejas. Espero que entendas que não te consegui salvar... Espero que perdoes o meu desleixo e impotência. Todos os dias conto histórias nossas à Awiti. Estás sempre, para sempre, no meu coração. Um dia vou ter contigo, mas por enquanto tomo conta da tua irmã cor de chocolate.
Até um dia meu anjo. Amo-te.