Carlota Wahnon
Eu estava vaguear pela beira-mar sem rumo, sem futuro sem aquele brilho nos olhos que desmascaram o fogo da vida.

Caí no chão sentada que nem um saco de ossos.

Tinha apenas uns calções que… Que fizeram a minha perna, a minha pele, eu, sentir a areia. Eu não estou sozinha. Não estou só, sinto algo. Não me sinto só a mim. A terra sente-me também e não quer que eu vá embora.

Ao realizar isto rebentei um choro dentro mim há muito perdido em cavernas recônditas.

Deitei todas as "kryptonites" para fora e absorvi todo a sal e sol que me rodeavam.

Deixei-me cair para trás e fiquei na berma da água a receber as suaves rebentações das ondas do verão à luz do pôr-do-sol.

Carlota Wahnon

Ada era uma rapariga inglesa de Whitby na casa dos vinte, baixa, de pele muito branca e bochechas cor-de-rosa, cabelo curto preto muito liso. Ada gostava muito de passear à beira mar e ficar com os óculos embaciados, gostava de, quando via um pássaro ou um gato giro levá-lo para casa e soltá-lo no dia seguinte; mas o que a Ada gostava mesmo era de ir à cidade dos seus sonhos, Paris, e tirar uma fotografia de noite à torre Eiffel, comprar uma pintura na rua a um homem que se chamasse Pierre e comer um croissant com compota francesa numa esplanada.

Ada vivia com os avós pois ninguém sabia o paradeiro dos seus pais. Desde criança que se lembra dos avós ternurentos a pendurarem os seus desenhos na parede do sótão que apesar de não serem grande coisa, recebiam sempre um “One day you’re going to be a great great artist Ada!”. Trabalhava num cinema local, na bilheteira, e todas as semanas tirava três bilhetes às escondidas para si e para os seus avós.
Um dia, a alguns meses do seu aniversário, os seus queridos avós sentaram-se sorridentes à sua frente na mesa da cozinha, com a toalha aos malmequeres, e deram-lhe um envelope que continha três bilhetes para Paris. Ada correu pelas escadas acima, agarrou na máquina fotográfica e quando desceu perguntou ao avô quem cuidaria das rosas do jardim – “Don’t worry about it precious, Mr. Willoughby from the church will take good care of them.”

Em Paris de dentro dum táxi perto da igreja de Notre-Dame saem três pequenas pessoas enamoradamente arrebatadas com a beleza da cidade. Depois de deixarem as malas num modesto hotel alugam três pasteleiras e pedalam pela cidade.
Tiram fotografias em frente à torre Eiffel, compram crepes com chocolate nos Champs-Élysées, a avó compra lírios para pôr no cesto da bicicleta, e o avô três baguetes (Paris, atrás do vento vindo de baguetes num cesto duma pasteleira cheira a um beijo no dia 31 de Fevereiro), pararam em três praças de pintores até encontrarem um Pierre pintor a quem compraram uma caricatura de Ada com uma boina francesa e uma paisagem - uma ponte florida ao pôr-do-sol.
Depois de irem a um cabeleireiro para Ada cortar uma franja como as francesas, procuram um sítio para jantar e encontram um restaurante com mesas por baixo de uma enorme árvore coberta de luzes e velas penduradas.

Enquanto Ada mastiga uma beringela do seu ratatouille vai espreitando e roubando pedaços do que a rodeia na sua memória, até prender o olhar num jovem acordeonista com cabelo encaracolado e um cigarro preso num rasgado sorriso despreocupado. Tocava e dançava uma valsa francesa. Ada engasgou-se e levantou-se tentando recuperar o fôlego, quando levantou os olhos o músico entrou num prédio abandonado, ela olhou para os avós que acenaram um sim com a cabeça. Com o guardanapo preso no casaco de malha encarnado e os óculos desalinhados correu atrás da música, entrou no prédio, subiu escadas de madeira agarrando um corrimão velho de ferro forjado, saltando as escadas duas a duas chegou ao cimo do prédio onde o acordeonista tocava olhando a torre Eiffel e todas as luzes de Paris.
Parecia que afinal alguém ali morava, no topo do prédio estavam coisas velhas como decoração, um triciclo velho, um sofá uma mesa e cadeiras de ferro e uma data de canteiros com flores.

- Je m’appele Gaston, et toi ma petite fleur?

- Eh… I'm Ada.

- Ah english! Would you carrre to dance?

Pousando o instrumento musical, Gaston põe um disco num gramophone perto do parapeito, agarra uma madressilva e coloca na orelha de Ada (é a palavra preferida dela – Honeysuckle).

Enquanto se fez ouvir a voz rouca de Fréhel, dançaram os dois com as luzes de Paris a abraçá-los.

Carlota Wahnon

- Pára! Não sejas tão cortante! Sê mais...

- Mais como? Como tu?

- Lá estás tu! És um bisturi, cortas muito, és demasiado exacta e cortas até ao fundo. Sim... mais como eu.

- Sabes que acabaste de pintar com caneta preta onde devo cortar, não sabes?

- Pára!

- Não estarás tu sem querer a transformares-te em mim, a pedires-me para ser mais como tu para voltares a ter o teu conforto do silêncio? Esquece isso. Foi um acidente, mas aconteceu, agora és assim. Não um bisturi, mas já não és uma colher.

- Estragas tudo com a merda das palavras! Porquê? Qual é o interesse? Se eu estou a ver um lago lindo contigo, rodeado de árvores que brilham com os reflexos ondulantes da água, não quero que mo descrevas, eu estou lá. Mais que a beber palavras para tentar decifrar uma imagem, estou lá para ver e sentir. Não estragues isso com o ruído das tuas palavras!

- E então? Olho-te nos olhos e tu sentes o que te quero dizer, é isso?

- Sim.

- Olha para mim.

- Não me faças isto...

- Olha para mim! Nos meus olhos! O que é que vês?! Que bichos se passeiam na minha cabeça?

- Aranhas e escaravelhos. Devias tirar uns unicórnios e umas fadas da minha. Tens os olhos tão turvos de escuridão do som da tua boca que nada vejo. Cala-te por um ano e depois falamos.

- És uma cobarde.

- Sou uma sonhadora.

- Chama-lhe o que quiseres. Tens medo da frontalidade e nunca a enfrentarás porque tens medo de "falar" com ela.

- Tenho o meu tipo de frontalidade.

- A sério? Há mais que um tipo? Genial! Quero ouvir! Ou vais debitar-me mais informação ocular?

- Guardo o mais importante para mim.

- Mas estás a partilhar isso comigo, e agora? És menos mística e mais comum por isso? Foges da vulgaridade como o diabo da cruz. Com isso tornas-te vulgar.

- Eu sei que sou vulgar.

- Não, tu não te julgas vulgar, só o dizes para eu te contrariar, como uma gorda que diz que ganhou uns quilos na esperança de ouvir um mentiroso "estás óptima" para servir de almofada para o ego. Trata de contornar a tua vulgaridade de outra forma. Falar com os olhos até um cão sabe para pedir comida ao dono. És mais que isso, suponho.

- Não te posso pedir para seres sensível e entenderes o que não digo através da linguagem do meu corpo ou dos meus olhos. Quando dizes que as flores do Renoir ou o céu do Van Gogh são, e passo a citar "borrões perfeitamente exequíveis para um comum mortal", eu sinto-me tão frustrada ao teu lado como uma testemunha de Jeová casada com um muçulmano.

- Achas que te quero declarar guerra?

- Contigo sinto-me constantemente num bunker, a tentar sobreviver a bombardeamentos.

- E se eu te disser que eu sou tu?

***

Abre-se a porta do quarto desarrumado deixando entrar um rapaz de pernas finas, calções, óculos para ver ao longe, aparelho, cabelo e cara suados de um possível jogo de futebol, com uma mochila às costas. Analisa o quarto e fixa os olhos no centro:

- Porque é que estás sentada em frente ao espelho?

Carlota Wahnon
Quando o teu corpo deixa de bombear sangue e a vida se extingue do batimento do teu coração, a tua “alma” cessa a sua existência.
Não, não foste o Alexandre o Grande noutra vida por teres liderado e conquistado países.
Não, não foste a Cleópatra por teres tido um caso com as duas cabeças da política e economia mundial.
Não, não foste o Einstein por teres inventado uma nova fórmula matemática para o problema da física quântica.
Não, não foste o Mozart por teres composto a peça de piano do teu século que será estudada posteriormente.
Não, não foste o teu avô porque não conseguiste nem tinhas vontade de ser um bom pai porque ela engravidou de propósito.
Tu, no sítio em que deste o teu último fôlego, deixaste a tua aflição, a tua alegria, o teu êxtase, o teu desespero, o teu orgasmo, o teu sofrimento. Tu és matéria e energia.
Um leopardo, um beija-flor, mesmo um cavalo-marinho, foram e deixaram de ser. Sentiram, sofreram e regozijaram tanto ou mais que tu na sua simplicidade de prazer, para no fim cessarem todos os seus momentos e experiências com um ponto final na sua existência. Vieste de matéria, e matéria voltarás a ser, terra, alimento, fertilizante, isso será a tua “reencarnação”. A tua “alma” é apenas reminiscências de energias fortes, passadas, que deixaste no teu local de partida. Como as nuvens, a tua energia dissipar-se-á e transformar-se-á em algo que já não és tu, como um “sim mãe” obediente de uma criança que antes fazia  birra, como a epifania de um Zé Ninguém que não tinha motivos de vida, como uma pessoa que queria dizer não e disse sim.
Não te refugies no conforto de um além guardado por um todo poderoso capaz de julgar, possivelmente chamado “Deus”. Vive plenamente, erra, acerta, escolhe, deixa ao acaso, faz, não faças, mas faz o que te faz feliz, pois vida, que tu alguma vez tenhas sabido, vivido ou sentido, só tens uma, e se não fizeres dela uma obra do Pollock, ao acaso e sem nexo, só porque te sabe bem, de que vale viver?
Carlota Wahnon
«Aqui sentado numa varanda de uma cabana de madeira sobre um manto branco de luz, o meu espírito viaja ao teu encontro para me dares um beijo, para sentir o teu cheiro, para te envolver nos meus braços e sentir o teu calor. Será que dormes? Que estarás tu a fazer minha boneca?
Foi o que despertaste em mim que me fez encontrar o meu verdadeiro eu. Contigo sinto-me tão completo como um pai abraçado pelo filho, completo como um dia de sol de verão repleto de luz.
Não sei se foi quando me deste a mão quando chovia naquele jardim, se foi quando caminhámos horas e horas pela linha de comboio abandonada até encontrarmos um rio, se foi quando um dia me deixaste um bilhete no bolso das calças que dizia “Tens tantas cores!”, se foi quando sujámos a roupa toda com terra da relva onde nos deitámos a observar as estrelas; se calhar foi em todos os momentos um bocadinho de cada vez… mostraste-me onde estavam escondidas as minhas asas e ensinaste-me a voar.
A neve faz-me lembrar a tua pele, branca, pura e brilhante.
Quero tanto tocar-te agora! Quero acordar e ter-te ao meu lado ainda a dormir, acariciar-te o cabelo, e sussurrar-te ao ouvido “acho que te amo” enquanto sonhas sem me ouvir. Será que quando acordares essa frase ainda se passeia algures num canto dos teus pensamentos e memórias à espera de ser ouvida?»
Carlota Wahnon
Nunca me senti mortal.
Só me lembro de existir mundo comigo nele.
Não saberei como ficou depois de me ir.
Não sou mortal, sou imortal; a terra é que só existiu quando eu lá estive.
Carlota Wahnon
"Hmm... Que cama. Sinto-me abraçado pelo seu calor; sinto-me no meu casulo feito de algodão. Adoro esta cabana, quente, com a lareira sempre a crepitar uns troncos de madeira caídos de qualquer maneira.
Que horas são? Não, não vou ver. Que dia tão cinzento... Com a neve branca e as nuvens não consigo distinguir o céu da terra. Se ela estivesse aqui..."

Levantando-se até à bancada da cozinha aquece um chá com leite que leva para a mesa da sala cheia de luz, que com portas de vidro para a varanda, faria qualquer fotógrafo fechar os olhos para guardar uma fotografia na memória.
Pondo os óculos com uma mão, com a outra puxa a franja do cabelo liso para trás. Dá um gole, e senta-se na cadeira com as pernas cruzadas.
Fica a olhar o horizonte, quando algumas nuvens se afastam e deixam passar raios de luz do sol.
Ele levanta-se e puxando as calças de pijama xadrez para cima, encosta-se ao vidro da janela a observar a neve reflectir o sol.
Agarra a chávena com as duas mãos e sente o aroma do chá.
Acaba de beber e vai para a varanda com um aquecedor, um bloco de notas, uma caneta e a cabeça cheia, num turbilhão de pensamentos vazios e sem corpo.
Passado um pouco, depois de engolir a beleza das montanhas cobertas de neve e brilho, o turbilhão transforma-se em algo parecido com uma mistura de fumo com água ondulante que escoa através da mão em forma de palavras para o papel.
Carlota Wahnon

Danças. Todo o teu corpo transpira sensualidade. O teu cabelo negro e longo que quer ser puxado, os teus olhos rasgados que se querem fechar, passando pelo teu peito pequeno e as tuas pernas altas que anseiam por um toque, fazem-te a maior das gazelas, quero-te.
Continuas a dançar e olhas-me nos olhos. Sentiste? Sentiste.
A música continua, tu provocas e sorris agarrando o teu peito delicadamente, enrolas o cabelo no indicador e chamas-me com o olhar. Estou hipnotizado, o meu corpo vai ao encontro do teu como um íman, incapaz de controlar, colo-me a ti.
Agarras-me a mão e levas-me para a casa de banho. Fechas a porta, soltas o cabelo, respiras fundo e agarras-me o pescoço. Beijamo-nos com todo o fogo do momento. Levantas a perna e enrolas à volta da minha anca. Inclinas a cabeça para trás, beijo-te o pescoço, depois o peito, enquanto procuras as minhas calças e desabotoas um botão.
Levanto o teu vestido e no meio das tuas pernas sinto o teu desejo molhado por mim. Ardo de desejo e tomo-te ali mesmo. Começo devagar e sinto-te toda, vou até ao fundo do teu ser.
Alguém bate à porta:
- Está gente?
Tu segredas-me numa voz rouca "não pares agora" e eu respondo um rápido "Sim" tentando esconder o meu deleite.
Suados, antes de chegarmos ao clímax, dizes-me:
- Toma-me... Toma-me como o teu maior pecado de luxúria.
Encostamos os lábios sem nos tocarmos e sentimos o ar quente e húmido da respiração um do outro. Agarro o teu corpo com força.
Com uma mão na boca e outra nas minhas costas, arranhas-me a tentas abafar um grito.
Ofegantes e com as roupas coladas ao corpo perguntamos em uníssono:
- Como te chamas?
Carlota Wahnon
Cabelos espigados pelos ombros e sem brilho envolvem uma cara despida de emoções e sentimentos, parece coberta de um espesso véu de apatia e constante desespero que esconde a beleza que ainda ontem (não foi ontem?) fazia quebrar corações com um gesto, ou dava vida com um olhar; essa, desapareceu como fumo.
Com os olhos irrequietos em constante busca de algo ou alguém, coça-se e morde o lábio lembrado-se de algo muito desejado.
Na discoteca onde sempre costumava sair parece destoar completamente da fauna envolvente. Hmm... Devem ser eles que estão tolos, já ninguém repara que ela lá está, e se notam a sua presença tossem de desconforto, ou afastam-se pedindo uma bebida no outro lado da pista.
- Broncos! Aqui não arranjo nada... Vou ao DownLow club que lá são mais fáceis, por mim fazem tudo.
Muda a música e o ambiente; de músicas sexys que convidam para a brincadeira passa-se para qualquer coisa negativa sem importância, de sorrisos e almas jovens para expressões carregadas de vício e sem medo de nada, nem da morte, desprovidas de uma coisa que se chama "amor" acho eu.
Os olhos da rapariga perscrutam esta nova selva podre, um espaço escuro e pequeno com meia dúzia de seres a arrastar-se, cada um no seu mundo. Dirige-se a um homem sentado sozinho a um canto, com a largura a exceder a altura, uma t-shirt manchada e suada, com os olhos fixos num ponto infinito para além da visão da rapariga.
Sentado-se ao lado do peludo gorduroso, esforça-se por ser algo que antes era naturalmente - sensual.
- Gosto dos teus ténis. - diz num tom provocador (dentro do possível).
Pondo a mão no colo da lontra, recebe em troca um olhar furioso, como quem é acordado de um nirvana para uma repugnante realidade.
- Não queres é? Nem sabes o que perdes oh gordo nojento, fazia-te coisas que nunca te fizeram. Anda lá.
Lambendo o lábio superior tenta seduzir o homem. Este, num movimento puxa-a para si e agarra com um apetite ordinário e voraz todas as partes do seu corpo. Ela deixa-se tocar, apática, vai agarrando o corpo do seboso até encontrar algo que a faz sorrir. Talvez "sorrir" não seja adequado aqui, vou reformular: "algo que a faz produzir um esgar de prazer vindo das mais profundas trevas do seu ser".
Agarrando em algo precioso e fugindo do homem agora aos berros, esconde-se no beco das traseiras do estabelecimento.
Lá fora, atrás de um contentor arregaça uma manga do casaco de malha com buracos e rasga a bainha do vestido demasiado largo, dando uma volta apertada ao braço esquerdo com o pedaço de tecido. Deita-se no chão incapaz de controlar o corpo com espasmos de sensações orgásmicas, e deixa-se ir.
Cai num poço profundo dentro de si sem se preocupar se um dia voltará ou não.
Carlota Wahnon

Epona cavalgava nos planaltos e penhascos escarpados da Gália, verdes e cheios de vida, sempre, depois da estação das chuvas.
Lugh sempre a observara, no nascer de todas as primaveras, quando o branco do inverno dava lugar às cores apaixonadas da estação das flores. Sendo um deus mágico e com um talento sobrenatural para a arte, decide um dia declarar o seu amor à deusa dos cavalos esculpindo uma estátua gigante desta a montar o seu majestoso percheron branco.
Durante sete dias, uma obra de arte divina nasce das suas mãos. Faltava apenas um detalhe, esse detalhe era tudo: faltava o sorriso de Epona. Desamparado, a luz de Lugh apaga-se apercebendo-se que nunca vira a sua amada sorrir.
No dia seguinte vê a deusa a montar numa praia com o chão coberto de pedras e segue-a até casa.

- Epona...
- Quem me chama? - pergunta Epona olhando em todas as direcções, assustada.
- Epona, sou eu, Lugh - este revela-se, saindo da sombra de uma árvore centenária.
- Lugh? Mas... O teu rosto, já não brilha como o sol. Que se passa?
- Perdi a minha luz ao realizar que nunca vi o teu sorriso. Mostra-me o espelho da tua alma nos teus lábios, faz-me brilhar outra vez e ganharás o meu coração e um tributo a ti na terra.

Epona sorri, não por Lugh lho ter pedido, mas por ficar comovida com as suas palavras, e por, talvez, este ter acendido sem querer uma luz na deusa de cabelos longos cor de avelã.

Uma estátua maior que o maior templo que a Gália já alguma vez vira erguera-se do dia para a noite, passando a ser adorada e venerada pelos humanos.

Lugh apesar de apaixonado, pouco sabia de Epona, esta era mulher de Dagdé o deus da fertilidade da vida e da morte.
Dagdé descobre quem fez a estátua e porquê. Sente-se atraiçoado como um Jesus por um Judas. Parte para a vingança quando se apercebe que a sua mulher olha pela janela quando ele lhe fala, suspira quando pensa encontrar-se sozinha; quando penteia os seus cabelos de uma forma diferente, quando os olhos se acendem sempre que ouve "Lugh".
Uma tarde, Dagdé segue Epona até um monte onde esta se encontra com Lugh e furioso, desce à terra destruindo com a sua maça a estátua que guardava o coração de Lugh.

O deus da arte fica sem alma e sem luz por não poder ficar com o amor da sua vida, morre por dentro e deixa o seu corpo vaguear sem destino no universo dos deuses.
Epona deixa de conseguir ter filhos do desgosto e Dagdé manda-a juntamente com o seu cavalo para a terra tornando-a mortal, até esta voltar a amá-lo.

Muitos anos se passaram, Dagdé continuava raivoso, Lugh continuava vazio, e Epona, cansada de uma vida tão solitária, morre olhando o pôr-do-sol lembrando-se de quando uma vez sorriu e amou.
Carlota Wahnon
"Não abras a boca quando mastigas!" - é o que lhe digo sempre ao jantar, e durante todos estes anos quando me apanha distraída, ele faz por arejar os dentes e o que eles mastigam. Ai... Enfim , mas eu amo-o, o que é que eu posso fazer? Burro velho não aprende línguas, mas este ao menos é um burro querido.

Acabámos de almoçar, e hoje está um dia lindo de sol, a seara que rodeia a nossa humilde casa de madeira está serena como o mar do mediterrâneo, ondula suavemente ao sabor da brisa.
Gosto desta parte do dia, depois de nos levantarmos, vou a tricotar no alpendre e vou espreitando pelo canto do olho o homem com quem partilho a minha vida há quarenta anos, a cuidar das flores que todos os anos faz brotar com tanto carinho.
Ao princípio quando lhe deu para a jardinagem e decidiu fazer um mar de flores que que se estenderia até à portinhola, coitadinhas das flores (risos) nenhuma brotava! Nunca diria que ele viria a ser um talentoso pintor impressionista da natureza (adoro ver as flores sem óculos, faz-me lembrar um quadro de Monet). De quando em vez, enquanto acaricia um ramo de Alfazema ou umas Margaridas, cruza os olhos com os meus, e faz-me lembrar que ainda somos namorados.

Apesar de termos diminuído de tamanho e os nossos cabelos terem ficado da cor das nuvens, apesar de andarmos mais devagar e as rugas terem tomado conta da nossa expressão; dormimos abraçados todas as noites, comemos sempre a sobremesa a meias, lemos juntos por baixo do maior sobreiro do nosso pequeno monte coberto de seara, temos crises de ciúmes, damos beijos na boca como nos filmes, e mais ainda que na flor da idade, amamos-nos com toda a sabedoria que a velhice traz.
Estamos agora por baixo do sobreiro a ler. Está um fim de tarde de sonho.

- Hoje podemos ficar aqui a ver as estrelas?
- Estás muito romântica hoje. Queria ir para dentro tratar do coelho que apanhei à bocado.
- Não... Fazes isso depois. Vá lá, não vemos as estrelas aqui há tanto tempo!
- Ai... Tu nunca hás-de mudar pois não? Hás-de ter sempre 19 anos. - com um sorriso ternurento levanta-se e tira o casaco para pôr nos ombros da sua eterna namorada.

***

Passados quinze minutos, ele adormeceu no ombro dela, e roncava baixinho. Ela riu-se e tornou a olhar para o céu. Viu uma estrela cadente a deslizar no profundo azul da noite estrelada. Fechou os olhos e pediu para nunca nenhum dos dois ficar só, pediu para irem os dois juntos quando for hora de não acordar nunca mais.
Passado um pouco foram para dentro jantar enquanto ouviam Benny Goodman no gramofone.

Na semana seguinte, depois de dois copos de leite fresco e pão com compota de tomate feita pelos netos na escola, foram ler para debaixo do sobreiro aproveitando a luz do sol que ainda ardia com calor.
No crepúsculo os dois adormeceram com as cabeças encostadas e sonharam eternamente. Sonharam eternamente por baixo do sobreiro, o maior sobreiro do monte coberto de cabelo dourado que abana ao sabor do vento.
Carlota Wahnon

No café velho, perto da bomba de gasolina, onde uma ventoinha preguiçosa roda sem refrescar o ar, e músicas dos anos 50 se fazem ouvir baixinho, chega um cliente habitual com um sorriso radiante, e sentando-se ao balcão, faz o seu pedido:
-Bom dia minha senhora! Estou com os espíritos renovados! Hoje em vez do costume… Ahm… Quero um sumo de laranja e um hamburger com duplo queijo. Não, não, só com uma fatia, que estou de dieta.
Mexendo-se no banco, talvez de gordura excessiva e medo de se desequilibrar do pequeno círculo que desaparece por baixo do seu real traseiro; ou talvez de excitação e felicidade, aguarda com um sorriso nervoso e gotas de suor a escorrer pela cara o seu repasto.
Com uma voz rouca de 31 anos de fumo a arranhar a garganta, a empregada por trás do balcão de idade indefinida (entre 57 e 153) grita, sem se mover, o pedido para o cozinheiro.
A caixa de música avariou, sendo a sua melodia substituída por moscas a voar, barulhos de meia dúzia de talheres, o zumbir da ventoinha e a respiração do nosso amigo cliente tão delicada como a de um elefante numa sauna.
A empregada de mesa, pisca os olhos em câmara lenta excessivamente pintados de azul pavão (como quando tinha 20 primaveras) esperando que o pedido seja entregue. Fica placidamente a olhar para o nada com o seu capacete de caracóis pintados de vermelho em cima do cocuruto. Em nova era realmente uma ruiva fogosa que fazia virar cabeças e semeava comentários vindos de prédios em obras como “qualquer-coisa-ordinária". Talvez esticando a pele das bochechas enrugadas, como quem trata de pele de tambor, ainda se veja a beleza de outrora – antes do chato do tabaco ter feito de cabeleira de fogo, cinzas, e da pele de branca de neve, a da madrasta velha. Maldita gravidade, e malditos relógios que não esperam por ninguém!
Pode perfeitamente substituir o triângulo de sinalização de perigo se tiver um acidente de carro: da camisa amarela às bolas verdes, à saia cor-de-rosa choque, passando pelo batom encarnado sempre acompanhado de um cigarro entalado na boca; ofusca qualquer inocente condutor.
Vendo o seu melhor cliente com ansiedade nos olhos e na boca que quer jorrar qualquer informação cá para fora, inala o fumo do cigarro e pergunta monocordicamente “se o cliente está bem e o que fez para estar com um ar tão feliz”.
No meio de trincas devoradoras, e mastigação a “céu aberto” (etiqueta americana), o anafado e bem-disposto cliente responde longamente com muito entusiasmo à sua pergunta.
Enquanto a empregada pensava na marcação do cabeleireiro para arranjar as unhas, e na vizinha que ainda não lhe devolveu o tupper-ware pequeno que lhe faz imensa falta, ouve uma matraca de fundo, que diz qualquer coisa como “blá blá blá, palavras, verbos, adjectivos”.
Voltando à realidade e reparando que o prato no balcão se encontra vazio e a boca do outro lado do balcão já não mastiga nem fala, inala mais uma vez o seu adorado cigarro e com a sua maravilhosa voz de catarro profere:
- Obrigada por ter vindo, são sete dólares se faz favor. Na Maggie’s Burgers fazemos os pratos mais deliciosos e suculentos (tosse profunda), volte sempre.
Carlota Wahnon
Todos nós já o conhecemos. É ele que nos desenha quadros que ganham vida na nossa mente quando estamos contemplativos, é ele que dá música ao momento em que olhamos pela janela de um carro ao atravessar uma ponte rodeada de floresta e rio. É ele que põe música na chuva lá fora quando encostamos a cabeça à janela de olhos fechados.

Muito alto e magro, de cabelo escuro, curto e despenteado, mãos delicadas e olhos grandes de um castanho profundo e brilhantes, tem sempre um sorriso escondido nos olhos meigos e alienados.

Todos os dias às 9.17 acorda com a melodia do afiador de facas que avisa a sua passagem. Tem um prazer especial em acordar a esta hora pois não é demasiado cedo, nem muito tarde, o perfeito para ter um dia que sabe a 24 horas.
Levanta-se sempre num pulo para quinze minutos depois estar vestido e lavado, pronto para ver passar pela pequena ponte de calçada desajeitada em frente ao seu prédio, a rapariga vendedora de espanta espíritos. Fica à janela com a cara caída na mão e cotovelo no parapeito a vê-la arrumar delicadamente os seus amuletos cantantes contra às más energias.
Deita migalhas de comida no aquário do seu peixinho Noah, sai de casa, agarra na bicicleta e segue para o oceanário de pequena escala da sua cidade.
Poucas vezes os aquários são esvaziados, por isso, são quase sempre limpos só por fora. É delicioso ver como ele dança com os filhos de Poseidon sem estar dentro de água.
Agarra na esponja com os seus dedos de pianista, e sob a luz etérea que emana dos aquários (pois sempre fez questão de os limpar sem luz eléctrica)esfrega devagar os vidros admirando a dança dos seres marinhos.
No fim do seu dia de trabalho senta-se ao lado dos visitantes a admirar os seus amigos peixes.

De volta a casa, agarra no aquário do Noah, coloca-o no cesto da sua bicicleta e pedala até à feira que à noite brilha com luzes que piscam e giram. Compra sempre algodão doce e pergunta com um gesto se o peixe quer um bocado. Ele nunca quer, prefere salgados. O algodão fica sempre intacto pois ele só o compra pelo gosto de ter uma nuvem doce na mão.
Um ou dois dias por mês, com a casa do seu melhor amigo levada por um carrinho de mão, atravessa a pequena ponte e compra uma pintura e por vezes outro espanta espírito para o seu pequeno apartamento reluzente. As palavras que trocam não têm som, os seus gestos e olhares já há muito disseram o mais importante. Eles amam-se! Mas shh... Ainda é segredo.

De volta a casa com um sorriso enamorado, coloca a pintura numa parede e senta-se no banco de madeira de três pernas colocando Noah ao seu colo. Contempla durante horas as paredes de sua casa forradas de desenhos e pinturas iluminados pelos brilhos e reflexos dos espanta espíritos que tilintam suavemente. Neles revê a graciosidade e beleza da rapariga que lhos vende.
Depois de uma sopa, dá as boas noites a Noah. Apaga a luz e adormece ao som dos espanta espíritos que dão música à sua pacata e doce vida.