Carlota Wahnon
Todos nós já o conhecemos. É ele que nos desenha quadros que ganham vida na nossa mente quando estamos contemplativos, é ele que dá música ao momento em que olhamos pela janela de um carro ao atravessar uma ponte rodeada de floresta e rio. É ele que põe música na chuva lá fora quando encostamos a cabeça à janela de olhos fechados.

Muito alto e magro, de cabelo escuro, curto e despenteado, mãos delicadas e olhos grandes de um castanho profundo e brilhantes, tem sempre um sorriso escondido nos olhos meigos e alienados.

Todos os dias às 9.17 acorda com a melodia do afiador de facas que avisa a sua passagem. Tem um prazer especial em acordar a esta hora pois não é demasiado cedo, nem muito tarde, o perfeito para ter um dia que sabe a 24 horas.
Levanta-se sempre num pulo para quinze minutos depois estar vestido e lavado, pronto para ver passar pela pequena ponte de calçada desajeitada em frente ao seu prédio, a rapariga vendedora de espanta espíritos. Fica à janela com a cara caída na mão e cotovelo no parapeito a vê-la arrumar delicadamente os seus amuletos cantantes contra às más energias.
Deita migalhas de comida no aquário do seu peixinho Noah, sai de casa, agarra na bicicleta e segue para o oceanário de pequena escala da sua cidade.
Poucas vezes os aquários são esvaziados, por isso, são quase sempre limpos só por fora. É delicioso ver como ele dança com os filhos de Poseidon sem estar dentro de água.
Agarra na esponja com os seus dedos de pianista, e sob a luz etérea que emana dos aquários (pois sempre fez questão de os limpar sem luz eléctrica)esfrega devagar os vidros admirando a dança dos seres marinhos.
No fim do seu dia de trabalho senta-se ao lado dos visitantes a admirar os seus amigos peixes.

De volta a casa, agarra no aquário do Noah, coloca-o no cesto da sua bicicleta e pedala até à feira que à noite brilha com luzes que piscam e giram. Compra sempre algodão doce e pergunta com um gesto se o peixe quer um bocado. Ele nunca quer, prefere salgados. O algodão fica sempre intacto pois ele só o compra pelo gosto de ter uma nuvem doce na mão.
Um ou dois dias por mês, com a casa do seu melhor amigo levada por um carrinho de mão, atravessa a pequena ponte e compra uma pintura e por vezes outro espanta espírito para o seu pequeno apartamento reluzente. As palavras que trocam não têm som, os seus gestos e olhares já há muito disseram o mais importante. Eles amam-se! Mas shh... Ainda é segredo.

De volta a casa com um sorriso enamorado, coloca a pintura numa parede e senta-se no banco de madeira de três pernas colocando Noah ao seu colo. Contempla durante horas as paredes de sua casa forradas de desenhos e pinturas iluminados pelos brilhos e reflexos dos espanta espíritos que tilintam suavemente. Neles revê a graciosidade e beleza da rapariga que lhos vende.
Depois de uma sopa, dá as boas noites a Noah. Apaga a luz e adormece ao som dos espanta espíritos que dão música à sua pacata e doce vida.