Carlota Wahnon
Enquanto danço, fecho os olhos e cerro os punhos. Bato com os pés no chão e lembro-me do que te disse "Sabes porque é que eu adoro techno? Porque soa-me à mãe Terra.". Tu sorriste e respondeste "Pois é" com um brilho nos olhos de quem sente o mesmo.
Ambos nos agachámos, descalços, para sentirmos melhor a batida quente e abafada que a Terra nos cantava.
Volto a mim e realizo que estou a reviver tudo isto de olhos fechados, noutro lugar, longe de ti, perto de outros.
A força do meu coração projecta a tua imagem diante de mim, incrivelmente vívida. "Estarei a sonhar?" Olho em volta e ninguém parece chocado com a repentina aparição dum homem num lugar vazio ainda nem há um segundo.
Fixo os olhos em ti. Não me consigo conter. Sinto uma onda escaldante percorrer todo o meu corpo, o meu coração quer saltar para fora do meu corpo e borboletas invadem a minha barriga. A tremer agarro, puxo as minhas roupas para não te saltar em cima ali mesmo, inundada de desejo, estou toda molhada e só te quero a ti. Foda-se, quero-te tanto! O meu corpo balança-se suavemente agora ao ritmo da tesão, já não ouço música nenhuma, só sinto o meu respirar pesado de desespero por que me tomes.
Levo a mão ao meu cabelo e puxo-o como se fosse a tua juba de leão. Olho-te nos olhos e pergunto "Aqui? Ali? Onde? Agora?... Agora?", tu respondes "Aqui, agora.".
As minhas pernas contorcem-se, o meu desejo funde-se com o meu amor por ti e tudo o que eu quero é sentir aquele cheiro a suor e sexo, as tuas costas rijas, as tuas mãos fortes, a tua barba deliciosa, a tua boca no meio das minhas pernas, tu... tu dentro de mim. Quero-te tanto...
Quando estico o pescoço para te beijar, desapareces. A música entra pelos meus ouvidos, arranhando com agudos desagradáveis, que me sabem a ruído e não a melodia, incapazes de disfarçar a minha tristeza e de apagar a minha saudade.
"Não é isto que eu quero. Quero-o a ele, quero dar-lhe todo o amor que ele nem sabe que sinto.
Onde andarás tu agora?"
Carlota Wahnon
Londres 1907
“Lá vai o raio do miúdo outra vez armado em esperto a tentar levar-me a carne seca!”
De trás de uma banca de carne, feita de caixotes e velhas tábuas de madeira, salta um homem alto, de meia idade com cabelo cinzento em forma de arco mostrando uma careca, nariz adunco e uma pança de cerveja em formação. Corria atrás dum gaiato conhecido por todos os vendedores da zona. Tratava-se duma criança pobre que por sorte tinha muito jeito naquilo que fazia: roubar, vender segredos ouvidos no confessionário, ou receber subornos para não o fazer. Lá que o miúdo era esperto, era; agora, nenhum dos assaltados se preocupava se o estômago do miúdo estava apertado ou recheado, criança ou adulto, tanto faz, se rouba, ou leva como um homem, ou é preso (depois de apanhar uma coça valente), e se os delitos forem em demasia, morre com um cutelo na nuca ou coisa que valha.

Depois de duas semanas intensivas a tirar lucros ao homem com uma careca no topo da cabeça, este decide colocar alguém a trabalhar na sua banca para se dedicar a perseguir o miúdo loiro sujo, ranhoso, de chapéu verde seco.

Com a sua bata manchada de sangue encosta-se a uma coluna de pedra dumas arcadas, assustando duas donzelas que se passeiam pelas ruas, que soltam um “Oh!” com as mãos enluvadas tapando a boca (uma delas fazendo cair a sua sombra rendada). O rapaz apercebe-se do alarido quando gira o pescoço, e como está em constante alerta, em caso de dúvida decide correr não vá alguém pedir-lhe o pão ou o chouriço de volta, ou pior.
O vendedor de carne corre atrás do rapaz pelas ruas sujas e lamacentas da chuva.
Passa duas ruas, vira à esquerda e vê o rapaz entrar num bordel com duas prostitutas à porta que lhe berram algo num tom irritado. Ao passar pela porta as duas fazem a lengalenga do costume:
- Que homem tão jeitoso por estas bandas. Está com uma cara chateada, não quer levantar os ânimos em cinco minutos ali atrás? – diz uma delas mostrando um sorriso de pérolas amarelas e castanhas.
Ignorando com alguma dificuldade uma proposta tão tentadora o homem entra e pergunta a uma mulher gorda e velha sentada num cadeirão cor-de-vinho, se vira um rapaz novo de chapéu verde entrar. A mulher aponta o dedo para uma cortina velha de veludo. Cerrando os punhos e rangendo o queixo de raiva, o homem atravessa o as tábuas de madeira em passo martelado, agarra o tecido velho e puxa para o lado entrando numa divisão adornada de véus, a cheirar a corpo e fluidos. Deitados numa cama, está um homem e uma mulher deslavada que com ar de enfado diz:
- Sai daqui oh carniceiro, põe-te na fila que este ainda nem começou.
Confuso o homem perscruta o quarto, com uma das sobrancelhas farfalhudas levantadas. Desconcentra-se quando leva com uma pedra na cabeça, volta-se, e vê de novo o miúdo, desta vez a rir-se a fazer caretas. O talhante, cego  de irritação corre de braços no ar, e quando está a sair do bordel, tropeça numa tábua de madeira colocada pelo rapaz. No chão, meio atordoado, é cercado por um bando de crianças e adolescentes pobres. Do meio deles sai o nosso herói com um grande bife na mão:

- Toma lá oh gordo, que quem manda aqui sou eu! – dito isto, arregaça a manga e dá uma estalada na cara do homem com o bife. Gargalhadas da velha, das prostitutas, dos miúdos, e mal o homem inspira com mais força para se levantar, correm todos gritando insultos infantis de longe.
Carlota Wahnon
Lá longe, de onde vêm as fábulas, onde o mar beija raivosamente a terra, onde o vento canta com mil vozes perdidas no tempo, onde as gotas de água dispersas no ar imitam a neve branca. Lá naquele sítio que guia os marinheiros, sentado num imperial banco de rocha, ergue-se o invergável farol habitado por um velho lobo do mar.
Alto, seco, de cabelo branco-alvo farto e ondulado, com um olhar intimidante que brilha como duas safiras; é como um deus depois da tempestade para os navios perdidos. Sempre com um pequeno barco atracado junto do rochedo, rema em marcha de socorro, quando sente urgência no seu nobre coração.
É um homem duro, valente, taciturno, ríspido, mas bem-disposto. No seu âmago vive a tristeza   de quem perdeu tudo o que tinha sem justa causa, mas tem a coragem de encarar a vida sempre com um sorriso.
A sua mulher morreu a dar à luz a uma pequena flor chamada Mar. Com apenas uns dias, o seu débil corpo sem mãe soçobrou numa onda que quase engoliu o velho farol.

Com as mãos nos bolsos, recebe o vento que enche a sua roupa e as rugas da sua pele de sal. De peito aberto contra o mar ufano, que mostra a sua bravura plenipotenciária em rombos constantes, recorda um momento de ternura com a sua mulher. Fecha os olhos e imagina a sua filha já criança, perfeita e incólume, com uma boneca nos braços a sorrir para ele – “anda, vamos jogar à apanhada!”. Encosta-se ao parapeito do topo do farol à espera de uma onda. Num gesto, agarra as gotas de água que trepam mais alto da rebentação e diz – Apanhei-te! – sorrindo.
Já sentiu raiva e ódio ao mar, mas com a idade foi perdendo esses sentimentos dando lugar ao respeito e à compreensão das vicissitudes da vida e à força da natureza.

Na aldeia todos os o olham com estima e consideração. Não é, pois, com espanto que é recebido com sorrisos e braços abertos ao subir a colina, banhado pelos últimos raios de sol depois da tempestade, segurando três peixes graúdos pescados por si. É noite de festa na aldeia, e todos contribuem com o que podem para dar graças à vida.
A filha da padeira deita um olhar lânguido e apaixonado ao velho lobo altivo. Sendo o seu suspiro incurável interrompido por uma cotovelada da mãe risonha:
- Oh filha, pod’esperar até ao final das obras da Santa Engrácia que ele não vai olhar para ti dessa maneira.
Irritada a rapariga, meia na brincadeira responde de nariz empinado:
- Está calada oh pacóvia, qu’eu cá não estava a mirar ninguém, ouvistes?
- Olha-m’esta toda saída da casca! Vai mas é tratar do pão para as pessoas se servirem, oh malcriada! Vá, a andar!

Dão-se abraços, ouve-se o acordeão, dança-se, bebe-se vinho e soltam-se gargalhadas.
Pelo canto do olho, quando o céu está pintado de estrelas e o farol iluminado pela lua, o velho lobo do mar espreita e faz um leve aceno com a cabeça, saudando o seu invergável companheiro.



Carlota Wahnon
À porta de um arranha céus ele acende um cigarro, enterra o chapéu na cabeça e puxa para cima a gola da gabardine para proteger o pescoço. Com um cigarro na boca e as mãos nos bolsos passeia-se pela chuva miúdinha da noite à procura de um lugar ou de uma bebida que faça brotar algo da sua mente infértil. Li num dos seus livros que acha que o melhor adubo para a criatividade é o álcool. Acho que ele não sabe o talento que possui, é tão inseguro...
Ele entra num bar com uma luz trémula azulada. Fico cá fora a observá-lo através do vidro. Os empurrões de quem passa na rua ao meu lado não me incomodam, estou demasiado absorvida pela visão dele a tirar o casaco e o chapéu, a passar os dedos pelo cabelo húmido e a sentar-se ao balcão com um copo de whisky à frente.

Ela entra no bar e senta-se num canto, observadora, enquanto uma banda de jazz interpreta Billie Holiday no seu mais Blue Mood. Estremece por estar tão perto dele e pensa "Será que já alguma vez, após todo este tempo, notou em mim?". Após mais de uma hora de hesitações, ganha coragem e senta-se ao lado do escritor, tira um maço da carteira e estende-o com um tímido sorriso desenhado nos pequenos lábios rosados. Ele bamboleia o tronco, desorientado pela bebida e tira um cigarro acendendo-o com um fósforo. Olhou a rapariga, coçou a barba curta e torceu o nariz. Talvez o cabelo dela tivesse demasiado volume, talvez os olhos dela fossem demasiado lunáticos, talvez o seu corpo não fosse demasiado interessante... Facto, é que ele abana a cabeça com um ar trocista e levanta-se para encontrar um lugar sentado noutro sítio.
A rapariga fica petrificada, com os olhos em lágrimas e o sorriso desfeito. Destrói os cigarros apertando-os na mão e deixa-se ficar no mesmo lugar, consumida pela amargura da rejeição.

Depois de mais uma noite sem conseguir acrescentar uma letra ao seu romance , o escritor tira uma nota do bolso, e sem verificar o troco sai para a rua da cidade que nunca dorme. Espera por um táxi que o leve a casa enquanto toca num poste de metal com os dedos o ritmo duma música que ouviu no bar. Um carro pára para o albergar da humidade deixada pela chuva, e quando entra balbucia umas palavras e adormece encostado à janela.

Quando abre os olhos vê areia e água... Está numa praia. Sente os movimentos presos e realiza que está enterrado na areia à beira-mar.
- Mas o que se passa aqui?! Como vim parar dentro deste buraco?! Não consigo mexer o corpo! Oh meu Deus! Que mal fiz eu? Como vim aqui parar?! Socorro! SOCORRO!
Mexendo a cabeça tenta futilmente libertar-se da prisão de areia molhada. Pára quando lhe aparecem uns pés com unhas pintadas à frente da sua cabeça. Os seus olhos seguem um corpo de mulher até uma cara  emoldurada por um cabelo descuidado. Uma cara que lhe é familiar... Engole em seco e arregala os olhos assustado.
- Tu! Tu estás sempre em todo o lado! Tu! Foste tu ontem que... - fica incapaz de continuar a falar paralisado com medo.
Ela senta-se molhando as calças na areia, acaricia o cabelo dele e dá-lhe um beijo forçado algures perto da boca. Respira fundo e olha para o mar.
- Está quase meu amor, está quase. - diz com uma serenidade desconcertante - Até já.

Levanta-se, caminha, e entra dentro de água vestida e sem olhar para trás desaparece no meio das ondas.
Berros perdem-se no ar sem ouvidos para os ouvir. Pedidos de socorro ecoam na praia sem ninguém para os socorrer.
A maré sobe e a cabeça na areia está agora debaixo de água com os olhos abertos e os cabelos a balançarem suavemente ao sabor da ondulação do mar.

Carlota Wahnon
Eu estava vaguear pela beira-mar sem rumo, sem futuro sem aquele brilho nos olhos que desmascaram o fogo da vida.

Caí no chão sentada que nem um saco de ossos.

Tinha apenas uns calções que… Que fizeram a minha perna, a minha pele, eu, sentir a areia. Eu não estou sozinha. Não estou só, sinto algo. Não me sinto só a mim. A terra sente-me também e não quer que eu vá embora.

Ao realizar isto rebentei um choro dentro mim há muito perdido em cavernas recônditas.

Deitei todas as "kryptonites" para fora e absorvi todo a sal e sol que me rodeavam.

Deixei-me cair para trás e fiquei na berma da água a receber as suaves rebentações das ondas do verão à luz do pôr-do-sol.

Carlota Wahnon

Ada era uma rapariga inglesa de Whitby na casa dos vinte, baixa, de pele muito branca e bochechas cor-de-rosa, cabelo curto preto muito liso. Ada gostava muito de passear à beira mar e ficar com os óculos embaciados, gostava de, quando via um pássaro ou um gato giro levá-lo para casa e soltá-lo no dia seguinte; mas o que a Ada gostava mesmo era de ir à cidade dos seus sonhos, Paris, e tirar uma fotografia de noite à torre Eiffel, comprar uma pintura na rua a um homem que se chamasse Pierre e comer um croissant com compota francesa numa esplanada.

Ada vivia com os avós pois ninguém sabia o paradeiro dos seus pais. Desde criança que se lembra dos avós ternurentos a pendurarem os seus desenhos na parede do sótão que apesar de não serem grande coisa, recebiam sempre um “One day you’re going to be a great great artist Ada!”. Trabalhava num cinema local, na bilheteira, e todas as semanas tirava três bilhetes às escondidas para si e para os seus avós.
Um dia, a alguns meses do seu aniversário, os seus queridos avós sentaram-se sorridentes à sua frente na mesa da cozinha, com a toalha aos malmequeres, e deram-lhe um envelope que continha três bilhetes para Paris. Ada correu pelas escadas acima, agarrou na máquina fotográfica e quando desceu perguntou ao avô quem cuidaria das rosas do jardim – “Don’t worry about it precious, Mr. Willoughby from the church will take good care of them.”

Em Paris de dentro dum táxi perto da igreja de Notre-Dame saem três pequenas pessoas enamoradamente arrebatadas com a beleza da cidade. Depois de deixarem as malas num modesto hotel alugam três pasteleiras e pedalam pela cidade.
Tiram fotografias em frente à torre Eiffel, compram crepes com chocolate nos Champs-Élysées, a avó compra lírios para pôr no cesto da bicicleta, e o avô três baguetes (Paris, atrás do vento vindo de baguetes num cesto duma pasteleira cheira a um beijo no dia 31 de Fevereiro), pararam em três praças de pintores até encontrarem um Pierre pintor a quem compraram uma caricatura de Ada com uma boina francesa e uma paisagem - uma ponte florida ao pôr-do-sol.
Depois de irem a um cabeleireiro para Ada cortar uma franja como as francesas, procuram um sítio para jantar e encontram um restaurante com mesas por baixo de uma enorme árvore coberta de luzes e velas penduradas.

Enquanto Ada mastiga uma beringela do seu ratatouille vai espreitando e roubando pedaços do que a rodeia na sua memória, até prender o olhar num jovem acordeonista com cabelo encaracolado e um cigarro preso num rasgado sorriso despreocupado. Tocava e dançava uma valsa francesa. Ada engasgou-se e levantou-se tentando recuperar o fôlego, quando levantou os olhos o músico entrou num prédio abandonado, ela olhou para os avós que acenaram um sim com a cabeça. Com o guardanapo preso no casaco de malha encarnado e os óculos desalinhados correu atrás da música, entrou no prédio, subiu escadas de madeira agarrando um corrimão velho de ferro forjado, saltando as escadas duas a duas chegou ao cimo do prédio onde o acordeonista tocava olhando a torre Eiffel e todas as luzes de Paris.
Parecia que afinal alguém ali morava, no topo do prédio estavam coisas velhas como decoração, um triciclo velho, um sofá uma mesa e cadeiras de ferro e uma data de canteiros com flores.

- Je m’appele Gaston, et toi ma petite fleur?

- Eh… I'm Ada.

- Ah english! Would you carrre to dance?

Pousando o instrumento musical, Gaston põe um disco num gramophone perto do parapeito, agarra uma madressilva e coloca na orelha de Ada (é a palavra preferida dela – Honeysuckle).

Enquanto se fez ouvir a voz rouca de Fréhel, dançaram os dois com as luzes de Paris a abraçá-los.

Carlota Wahnon

- Pára! Não sejas tão cortante! Sê mais...

- Mais como? Como tu?

- Lá estás tu! És um bisturi, cortas muito, és demasiado exacta e cortas até ao fundo. Sim... mais como eu.

- Sabes que acabaste de pintar com caneta preta onde devo cortar, não sabes?

- Pára!

- Não estarás tu sem querer a transformares-te em mim, a pedires-me para ser mais como tu para voltares a ter o teu conforto do silêncio? Esquece isso. Foi um acidente, mas aconteceu, agora és assim. Não um bisturi, mas já não és uma colher.

- Estragas tudo com a merda das palavras! Porquê? Qual é o interesse? Se eu estou a ver um lago lindo contigo, rodeado de árvores que brilham com os reflexos ondulantes da água, não quero que mo descrevas, eu estou lá. Mais que a beber palavras para tentar decifrar uma imagem, estou lá para ver e sentir. Não estragues isso com o ruído das tuas palavras!

- E então? Olho-te nos olhos e tu sentes o que te quero dizer, é isso?

- Sim.

- Olha para mim.

- Não me faças isto...

- Olha para mim! Nos meus olhos! O que é que vês?! Que bichos se passeiam na minha cabeça?

- Aranhas e escaravelhos. Devias tirar uns unicórnios e umas fadas da minha. Tens os olhos tão turvos de escuridão do som da tua boca que nada vejo. Cala-te por um ano e depois falamos.

- És uma cobarde.

- Sou uma sonhadora.

- Chama-lhe o que quiseres. Tens medo da frontalidade e nunca a enfrentarás porque tens medo de "falar" com ela.

- Tenho o meu tipo de frontalidade.

- A sério? Há mais que um tipo? Genial! Quero ouvir! Ou vais debitar-me mais informação ocular?

- Guardo o mais importante para mim.

- Mas estás a partilhar isso comigo, e agora? És menos mística e mais comum por isso? Foges da vulgaridade como o diabo da cruz. Com isso tornas-te vulgar.

- Eu sei que sou vulgar.

- Não, tu não te julgas vulgar, só o dizes para eu te contrariar, como uma gorda que diz que ganhou uns quilos na esperança de ouvir um mentiroso "estás óptima" para servir de almofada para o ego. Trata de contornar a tua vulgaridade de outra forma. Falar com os olhos até um cão sabe para pedir comida ao dono. És mais que isso, suponho.

- Não te posso pedir para seres sensível e entenderes o que não digo através da linguagem do meu corpo ou dos meus olhos. Quando dizes que as flores do Renoir ou o céu do Van Gogh são, e passo a citar "borrões perfeitamente exequíveis para um comum mortal", eu sinto-me tão frustrada ao teu lado como uma testemunha de Jeová casada com um muçulmano.

- Achas que te quero declarar guerra?

- Contigo sinto-me constantemente num bunker, a tentar sobreviver a bombardeamentos.

- E se eu te disser que eu sou tu?

***

Abre-se a porta do quarto desarrumado deixando entrar um rapaz de pernas finas, calções, óculos para ver ao longe, aparelho, cabelo e cara suados de um possível jogo de futebol, com uma mochila às costas. Analisa o quarto e fixa os olhos no centro:

- Porque é que estás sentada em frente ao espelho?